sexta-feira, 24 de abril de 2009

Sem porto e sem navios

Parte I:
Que confusão do caralho! O que foi dito, foi esquecido; o que foi visto, passou despercebido; o que pregavam, não mais se coloca em prática; a verdade antes absoluta, agora transformada numa sincera mentira camuflada.
A confiança se dissolveu, o amor desapareceu, a solidão bateu, o medo surgiu e se apossou do que antes me trazia tanta segurança. Agora sem porto e sem navios.
O Chão se abriu, o mundo caiu, o povo sumiu, o sol surgiu, mas por estar no buraco fui impedido de ver a luz. A escuridão chegou e turvou o que havia de mais belo. Momentos de pura solidão e de profunda reflexão. Aos poucos me conhecendo e dissolvendo em mim o que não mais me agrada.

“Olha lá, quem acha que perder é ser menor na vida. Olha lá, quem sempre quer vitória e perde a glória de chorar...” (O vencedor – Los hermanos)

Alguns dias depois...
Parte II:
Mesmo diante da escuridão, tenho convicção de que tudo continua exatamente no mesmo local. As flores continuam no caminho (Ouvir: “Vem andar comigo” – Jota Quest), o sol continua a pino (Ouvir: “Temporada das flores” – Leoni), a lua magestosa como munca (Ouvir: “Lua cheia” – Papas da língua) e a vida rara e bela (Ouvir: “Paciência” – Lenini) à minha espera.
O caminho é belo e longo e as paradas, às vezes forçadas, são de fato necessárias. Esquece de uma vez por todas o ponto de chegada e curte a beleza e magia de cada passo ao longo dessa inusitada e feliz caminhada.

“Eu passei um tempo andando no escuro, procurando não achar as respostas. Eu era a causa e a saída de tudo e eu cavei como um túnel meu caminho de volta. Me espera amor que eu estou chegando...” (Temporada das flores – Leoni)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Jogo da vida

Pés descalços, ombros caídos, corpo encurvado e cansado, desnudo de esperança, sedento por felicidade, sorriso pintado no rosto e nariz de palhaço lá vou eu... Fazendo graça no circo da vida pra tentar sufocar e rejeitar o que tanto me consome, o que tanto me faz falta. Buscando a todo instante me livrar e me libertar do que eu não mais tenho, do que um dia me trouxe tanta felicidade. Confuso isso não é verdade? Como descartar algo que não mais te pertence?!
Mente perigosa, coração tolo e frágil, coberto por medo, vazio de esperança, cansado de tanta solidão e de tanta espera eu sigo tentando encontrar o meu caminho e o real sentido da vida. Estar vivo definitivamente não basta! Um caminhante, um combatente, um sonhador, um figurante.
Uma mente que não tenho controle, um coração que me domina, um corpo que não me obedece, uma vida em preto e branco num mundo cruel e triste que insiste em se fazer presente. Até quando meu Deus, até quando permaneceremos assim, depositando em outras pessoas e no futuro a nossa felicidade?
Somos perfeitos, completos, inteiros, mas insistimos na idéia de continuar buscando algo, “outras metades”, outras pessoas que nos complete, que dêem sentido às nossas vidas e que nos tornem felizes. Que contradição essa, que loucura é a vida!!
Confesso que não sou muito adepto a essa idéia de cara-metade (acho idiota!) e insisto na idéia de que juntos formamos um grande e complexo quebra-cabeças. Onde cada um de nós, só dará sentido real à sua vida quando nos somarmos, quando nos unirmos. O quebra-cabeças dá idéia de amplitude e nos abre um leque para várias possibilidades. A busca é interessante e prazerosa, porém, às vezes, cansativa e extremamente dolorosa. Precisamos tentar, experimentar muito antes que a imagem da vida seja de fato formada.
Estranho seria se logo na primeira tentativa de junção, de união, encontrássemos às peças que nos completariam. Ficaríamos imóveis (às vezes até felizes), presos a elas logo no início desse jogo louco chamado vida e com isso, perderíamos a chance de buscar, viver, conhecer e experimentar novas situações e pessoas, novos lugares. As perdas (amores, amigos), representam justamente as várias tentativas em busca do encaixe perfeito, das pessoas que darão sentido às nossas vidas. A partir daí tudo começa a fazer sentido...
Não tenha medo de errar, permita-se ser feliz, mas cuidado com mudanças bruscas. Cuidado pra não machucar e ferir peças que, apesar de não te completarem, foram fundamentais e importantes em tua vida. Lembras que o jogo só termina quando a última peça for colocada.
“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”
(O Pequeno príncipe)

Dos três mal amados

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água...
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

[Falas do personagem Joaquim da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.]

P.S. Esse ao contrário dos demais, não fui eu que escrevi. Mas curto um bucado, principalmente a versão dele cantada por Cordel do Fogo Encantado. Quem puder ouça.

Processo de morte

Pela primeira vez, o título surge antes do texto: Processo de morte. Não sei porque, mas gostaria de escrever algo relacionado ao tema. Não sei sobre o que falar, quais palavras usar, qual linha seguir, mas tenho convicção do eu sinto agora. Não é a toa que me deparo com um tema tão mórbido e tão estranho.
A falta de inspiração continua, mas insisto na idéia de continuar escrevendo. Não gostaria e não pretendo escrever sobre a morte física, aquela propriamente dita e que todos temem. Queria escrever algo sobre a morte de sentimentos, a morte de sonhos, a morte de pessoas que amamos e que vivas nos induzem a auto-tortura. Tornamo-nos suicidas! Tornamo-nos assassinos dos nossos sonhos e planos. Tornamo-nos cruéis assassinos do que antes nos mantinha vivos e do que, um dia, nos trouxe tanta felicidade.
O processo de captura, acorrentamento, amordaçamento, enclausuramento e tortura de sentimentos e planos tão nobres e tão puros é altamente doloroso e de uma crueldade sem fim. Se não discipulos da morte, tornamo-nos escravos do passado e de pensamentos fujões, famintos por liberdade, que insistem em se fazer presentes. Eles nos dominam, nos controlam, nos atormentam e nos reduzem a quase nada. Tornamo-nos tão dependentes que nos julgamos incapazes de trilhar, agora sozinho, novos caminhos.
Após a perda, surge a dor, a falta, a solidão e uma vontade terrível de morrer (Risos...). Nesse estágio parece que só a morte é capaz de aliviar tanto sofrimento. Mas ninguém morre por isso! Logo após essa loucura toda, surge a necessidade de aceitar. A aceitação é sem dúvida o primeiro passo para a libertação.
O segundo passo consiste no desapego, na necessidade de esquecer, de se libertar, de seguir a vida. Na prática, para a maioria das pessoas, é muito doloroso, demorado e difícil, mas é sim possível. Não te resta outra alternativa: ou você resolve de uma vez por todas se libertar do passado (falar é muito fácil!) e sacrificar este sentimento, que agora é só seu, ou você ficará pelo resto dos teus dias sofrendo, se lamentando... Permanecerás ali, na miséria, na mesmisse, na profunda e eterna solidão. Enquanto teu (tua) amado(a) está aí, já nos braços de outro(a)s e em busca da felicidade, que você julgava ser capaz de dá-lo(a).
Admite de uma vez por todas que não há mais nada a fazer, a não ser seguir adiante! Lembras sempre que é sim possível ser feliz novamente e, por favor, não tenta atropelar nenhuma etapa. Todas elas são de fato muito importantes! A gente se acaba, mas cresce muito com essa situação toda. No final, quando esse furacão passar, verás que só te restaram os momentos felizes para recordar e, talvez, uma bela e verdadeira amizade.
“Existe um dom natural que todos temos. As nossas escolhas vão dizer pra onde iremos...”
(Uma criança com o seu olhar – Charles Brown Júnior).
P.S. Esse vai para os meus muitos (quase todos) amigos que atualmente sofrem com as loucuras do coração. Vocês são a minha atual fonte de inspiração.

O sertão vai virar mar (Esse vai para a galera da UNIVASF)

A grande profecia proferida por Antônio Conselheiro e pregada pelo grande e ilustre poeta nordestino Luiz Gonzaga começa a se cumprir na íntegra no sertão brasileiro. Antes vista como uma região onde a miséria e seca prevaleciam sobre todas as coisas, agora serve como porto para o desembarque da Universidade Federal do Vale do São Francisco. Instituição responsável por essa mudança profética.
O Sertão literalmente começa a virar mar. Um mar que poluição nenhuma atinge, um mar onde a falta d'água não impede que ele flua, onde o sal representa idéias, as ondas refletem mudanças e os nobres velejantes estão representados por um grupo de jovens que buscam com tecnologias simples romper fronteiras e trazer desenvolvimento. A embarcação já está armada e os velejantes prontos para o embarque no mar de conhecimento.
Não restam dúvidas que dilúvios e tempestades virão, mas com muita sabedoria, muito trabalho e muita força de vontade nós conseguiremos fazer valer à pena as idéias futuristas do nosso profeta.
Não queremos portos gigantescos, nem navios luxuosos que transportam e exportam conhecimento. NÃO AGORA!!! Queremos primeiro, com muita humildade e simplicidade desbravar a nossa região em pequenos barcos a vela, que levam poucos viajantes, porém suportam o grande peso da bagagem científica e tecnológica que pretendemos distribuir aos nossos anfitriões nordestinos.
Em pequenos barcos, conseguiremos nos dividir em pequenos grupos e visitar lugares antes inacessíveis e dividir uniformemente o conhecimento adiquirido ao longo de prolongados, e as vezes, cansativos anos de estudo.
A mudança vai ser visível e as águas deste grande mar que começa a se formar nos levará há lugares nunca visitados, transformações nunca vistas e ao tão sonhado e buscado desenvolvimento. Tenho certeza que, com o tempo, essas pequenas embarcações se tornaram defasadas e inutilizadas perante a grandiosidade desse mar.
E nós, futuros Engenheiros Agrícolas e Ambientais, teremos uma missão mais que importante perante essa transformação social, cultural e intelectual. Teremos que manter o ambiente sempre limpo, com águas navegáveis e evitar que rios poluídos deságüem em nossas águas e impeçam que flua o conhecimento. Precisamos estar atentos!!!
A reciclagem e a preservação serão fundamentais em todo esse processo. Precisaremos reciclar o conhecimento adquirido pelo nosso experiente povo sertanejo e utilizá-lo como base para desenvolvermos a nossa tecnologia de ponta. Precisamos também preservar a cultura e utilizá-la como inspiração para desenharmos o nosso futuro.
Escrito em: 11/03/2006.